Antologio

Sobre 🗳️ Democracia / Thoreau

Henry David Thoreau.

Henry David Thoreau em "A Desobediência Civil e Outros Escritos". Texto 1: "A Desobediência Civil". Editora Martin Claret, São Paulo, 2002.

Toda votação se constitui num tipo de jogo, como damas ou gamão, com uma leve coloração moral, em que se brinca com o certo e o errado sobre questões morais. Por certo que há apostas nese jogo. Não entra nas avaliações o caráter dos eleitores: 'Declaro meu voto - provavelmente - consoante meu critério moral. Conquanto não tenho um interesse vital de que o certo saia vitorioso. Tenho certa disposição a deixar essa decisão para a maioria.'

Desse modo, o compromisso de votar nunca vai mais longe do que as conveniências. Nem sempre o ato de votar pelo que é certo implica fazer algo pelo que é certo. Significa tão-somente uma maneira de expressar publicamente meu fraco desejo de que o certo venha a prevalecer. Já um homem sábio não deixará o que é certo nas mãos incertas do acaso, e nem esperará que sua vitória se dê através da força da maioria. Escassa virtude é o que se vê nas ações da grande turba.

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Afinal de contas, o motivo prático pelo qual se admite o governo da maioria e sua continuidade - considerando o poder nas mãos do povo - não é sua maior tendência a emitir bons juízos, tampouco porque possa parecer o mais justo aos olhos da minoria, mas sim porque esta maioria é fisicamente mais forte. Um governo no qual prevalece o mando da maioria, no entanto, em todas as questões não pode ser baseado na justiça, mesmo no limite da avaliação das pessoas. Seria possível um governo em que a maioria não decida virtualmente o que é certo ou errado? Em que a maioria decida tão-somente aquelas questões às quais seja aplicável a norma da conveniência?

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Realmente, nenhum homem tem o dever de se dedicar à erradicação de qualquer mal, mesmo o maior dos males. Esse homem pode muito bem ter outras preocupações que o ocupem. Mas ele tem pelo menos a obrigação de lavar as mãos frente à questão e, no caso de não mais se ocupar dela, de não dar qualquer apoio prático à injustiça. Quando me dedico a outras metas e considerações, preciso verificar, no mínimo, se não estou fazendo isto à custa de alguém em cujos ombros esteja pisando. Que eu saia de cima dele é necessário para que ele também possa estar livre para fazer suas considerações.

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